Imagem de capa do artigo Stranger Things Vol 2, com atmosfera sombria e estética dos anos 80, destacando o tom dramático da temporada final e seus personagens centrais.
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STRANGER THINGS VOL. 2 E O AMADURECIMENTO EMOCIONAL DA SÉRIE

Stranger Things Vol. 2 é um mergulho mais profundo nos medos, vínculos e cicatrizes que se formaram ao longo dos anos em Hawkins, marcando uma virada emocional importante na temporada final da série.

O segundo volume da temporada final despertou opiniões bem divergentes no fandom da série. Algumas envolvendo questões de roteiro, outras de atuação, qualidade de efeitos especiais, enfim. Vamos conversar um pouquinho sobre o andar da temporada final até o momento?

Os 4 primeiros episódios começaram acelerados, como os criadores já haviam alertado que aconteceria, aumentando as expectativas dos fãs da série sobre um final promissor. No Vol.1 vemos o elenco engajado na caça ao Vecna, em resgatar as crianças de Hawkins e salvar o mundo, mas sem se aprofundar tanto na parte dramática e nas questões internas dos personagens que também precisam ser resolvidas. Isso, ficou para o Vol.2, que talvez, tenha parecido tão morno para muitos, pelo formato espaçado de lançamentos dos episódios.

DESACELERAR DE UMA VEZ RESFRIA AS EXPECTATIVAS

Para quem sentiu um pico de adrenalina maior no início, mais ação e grandes revelações cercando o elenco principal, precisou desacelerar e focar no drama de muitos personagens, como: a dificuldade em lidar com o luto de Dustin, as frustrações de Steve, o relacionamento conturbado de Nancy e Jonathan, o excesso de proteção de Joyce, a orientação sexual de Will, a luta interna entre o que é certo e necessário de Eleven e Kali, entre outros. Sem se aprofundar nessas questões, Stranger Things não teria se tornado a franquia que hoje se consagra.

NANCY NÃO É UM PRÊMIO A SER CONQUISTADO

É mais do que necessário EXALTAR a trajetória de Nancy Wheeler, que desde o início, é muito diminuída pelo público que a reduz na mulher indefesa que estão acostumados a assistir em narrativas não protagonizadas por mulheres.

Nancy é uma das personagens, se não a maior, com o melhor desenvolvimento da série. Ela pode até ter sido apresentada como uma típica menina hétero, branca, estudiosa e filha modelo de uma família tradicional americana. Mas que se transforma, após se sentir culpada pela perda da melhor amiga Barb, na primeira temporada.

Nancy segue sua vida amorosa ao lado de Steve e posteriormente Jonathan, mas nunca mais deixou seus sentimentos atrapalharem sua própria trajetória, seja no ímpeto pessoal, profissional ou familiar. Muito pelo contrário, aprendeu a ter voz ativa, a lutar e defender o que acreditava ser certo para salvar outras pessoas.

A cena entre Nancy e Jonathan Byers acontece no melhor cenário possível: fim de mundo, aparente morte inevitável, a privacidade desconfortável que tanto evitaram, num cenário que transparece exatamente o estado do relacionamento deles desde a quarta temporada: desmoronando, ou melhor, naufragando? Com referência à clássica cena de Titanic entre Rose e Jack em cima da porta.

O relacionamento que parecia ser perfeito pela união das desgraças do destino, se fragiliza quando os “underdogs” percebem que o amor existe além das camadas de um relacionamento amoroso; ele também existe na admiração por alguém que já vivenciou os mesmos traumas que os seus.

Grandes esforços para caber nas expectativas dos outros, só nos leva a cumprir o papel de autoanulação e consequentemente a infelicidade. Nancy é maior do que a redução de papel que muitos a tomaram ao longo dos anos e merecia espaço na história para além de uma disputa entre alfas. Ponto para os duffer brothers.

A perda de Barb foi o trauma transformador de Wheeler, que desde o início não aceitou o papel de donzela em perigo, sentar e esperar o tempo passar. Ela usou a dor como combustível para enfrentar seus instintos, ocupar seu lugar de desejo (inclusive, muitas vezes ocupado por homens num ambiente hostil, machista e misógino).

Nancy não termina o Vol.2 solitária, termina livre e ganha espaço para buscar os próprios sonhos, sem depender de um destino pré-moldado de uma sociedade patriarcal: sem seis filhos (mini nuggets) ou bêbada o tempo todo pra conseguir lidar com os traumas ou suportar um relacionamento insustentável. A jornada de Nancy seria finalmente buscar o próprio perdão e finalmente sua redenção? Talvez.

Nancy e Jonathan

O AMADURECIMENTO EMOCIONAL EM STRANGER THINGS VOL. 2

O maior trunfo do Vol.2, é sem dúvidas, o diálogo entre Will e as pessoas pertencentes ao seu círculo de segurança. A orientação de Byers é posta em dúvida de forma despretensiosa desde a primeira temporada, com o bullying sofrido na escola e as falas machistas/homofóbicas por parte do pai biológico.

A cena que levou mais de 24h no total para ser gravada, com várias tomadas, de acordo com o próprio Noah Schnapp, carrega uma forte carga emocional, não revelando “apenas” a dor real de uma pessoa LGBTQIAPN+, como nos transporta para uma realidade ainda mais cruel na década de 80.

Uma grande parte das críticas à cena, foi o incômodo que algumas pessoas sentiram com a descrição dos sentimentos do personagem. Uma coisa é fato, esperar que questões tão sérias e sensíveis como essa sejam abordadas na trama que se passa na década de 80, como é tratada hoje (que ainda é, infelizmente, muito retrógrada) é no mínimo, ter uma visão um pouco ignorante, se não limitada. Ainda que seja uma série de ficção e estamos falando de uma trama COMPLETAMENTE fora da realidade, com monstros e poderes… ainda assim, a história é contada sendo imaginada dentro de um contexto real.

A atuação de Schnapp traz mais do que talento, mas uma dor real e compartilhada por muitos. Não ter sido utilizada a palavra gay por Will nesse diálogo ou lésbica por Robin desde a terceira temporada, em nada diminui a importante presença de seus personagens e toda a representatividade que eles trouxeram.

Não é sobre os criadores terem “MEDO” de dizer com todas as palavras o que eles são ou representam… é sobre mostrar através dos personagens o quanto se ainda hoje para muitos dói serem rejeitados por amarem, imagina como seria ser assim na década de 80. É sobre CONTEXTO e uma triste realidade que até hoje perdura em muitas sociedades ao redor do globo.

Elenco de Stranger Things se abraçando na temporada final

O LUTO NÃO FALADO QUE CONSOME EM SILÊNCIO

Ao desacelerar o ritmo e apostar no drama, Stranger Things Vol. 2 convida o espectador a olhar para dentro de seus personagens.

Dustin e Steve se tornaram as maiores apostas de morte para a última temporada, sabendo disso, os irmãos Duffer vêm aquecendo o termômetro com o público através de comentários na mídia e participação em programas e entrevistas. Seria tão óbvio assim?

O gênio do grupo termina a quarta temporada despedaçado emocionalmente. Após a perda assistida de Eddie, Dustin é consumido por um luto cruel, afasta os amigos de infância e não consegue lidar com as mentiras que rodeiam a perda do amigo. A figura engraçada e fofa que envolvia o personagem desaparece e pela primeira vez vemos um lado de Henderson que nem ele próprio conhecia.

Apesar de entender como seria perder uma pessoa incrível como Eddie, a dor parece um pouco aumentada diante do seu comportamento agressivo e rebelde.  Mas o 5º e 6º episódio nos traz um pouco mais de clareza sobre essa escuridão interior.

Como muito bem descreveu para Steve, Dustin exalta a importância de Eddie em sua vida. Ele não apenas o salvou, mas ele salvou a vida de todos com o próprio sacrifício. O que o tornava único não era o fato de ser um personagem perfeito, pelo contrário. Numa época tão “cabeça quadrada”, aqueles que ousavam se diferenciar era vistos como esquisitos, e eles sabiam disso.

Não atoa Eddie em uma única temporada se transformou no personagem favorito de muitas pessoas.  Porque ele era genuíno e nunca precisou fingir ser algo diferente.

Só quem já experienciou o luto de alguém importante para entender um pouco as milhares de camadas que isso implicaria na vida de alguém.

Muito se fala sobre a evolução de Steve, e com razão. O carisma do ator também ajudou e muito para que o personagem detestável ganhasse o coração do público, e consequentemente mais espaço na trama. A famosa redenção do babaca.

E por mais que amemos o papai Steve, desde a morte de Barb, a perda de Nancy, até esse momento, Steve ainda segue aprendendo a não ser o centro das atenções. Prova disso é a disputa machista por Nancy entre ele e Jonathan, e o ataque de ciúmes numa comparação injusta entre Dustin e Eddie pelo papel de melhor amigo. Mas algo em Steve faz com que ele facilmente desperte o sentimento de empatia e identificação por parte do público: ele é aquele personagem que apesar de estar sempre errando, por querer ser uma pessoa melhor, ainda assim, se coloca na linha de frente da batalha se preciso for salvar os amigos.

Dustin e Steve em um ambiente escuro e danificado, onde um deles oferece apoio ao outro, em uma cena marcada por tensão e empatia.

ELEVEN, JANE HOPPER... QUEM MESMO?

A atuação de Millie Bobby Brown tem sido alvo de críticas por parte da crítica, assim como dos fãs, e sinceramente? Com razão. A atriz demonstrou logo em sua estreia como Eleven, o potencial de sua atuação. Mas sem querer tecer algum tipo de hate na atriz, a sua atuação até o momento deixa e muito a desejar.

A falta de protagonismo da atriz na quinta cria incômodo, mas ele também se faz necessário, levando em consideração que Eleven é a personagem com o maior potencial “psíquico” de destruir o vilão da história. Isso acarretaria na destruição de Vecna, sem uma grande história que precisa ser contada, ou na morte inconsequente e sem propósito de El.

Então por mais que desejássemos mais presença de tela da personagem na temporada final (até porque ela é a protagonista), ainda assim, faz sentido afastá-la um pouco até o confronto final, pela forma como tudo foi escrito até o momento.

O quanto a nossa raiva por Kali, na sugestão de um sacrifício duplo por uma causa maior, nos blinda de enxergar um possível heroísmo por parte dela? E o peso que o lema de El e Mike de “amigos não mentem” carrega nessa sentença? Ou até mesmo interliga esse desfecho com o discurso de Will e o alerta que ele faz a Eleven sobre Vecna utilizar o medo e segredo das pessoas para usar contra elas?

O papel de liderança, gênio forte e líder do grupo, Mike, também FINALMENTE retorna na última temporada (antes tarde do que nunca). Fica cada vez mais claro também, que sua ativa participação nesse momento,  não é vãmente. Mike não está ileso de um envolvimento entre o desfecho final de William e Jane, basta descobrirmos se teremos um final feliz ou um grande sacrifício em nome do amor que um sente pelo outro.

Será que finalmente os criadores terão coragem de frustrar os fãs e dar uma grave consequência para uma guerra quase desproporcional em questão de poder equiparado?

Kali e Eleven sentadas de costas uma para a outra em um campo aberto, em postura meditativa, sob um céu nublado e silencioso.

O QUE TANTO INCOMDOU AS PESSOAS?

Várias coisas, e muitas das críticas são consideráveis.

O problema maior é quando a crítica vem acompanhada sem análise, ou maldade. A atuação de Millie foi muito comentada por parte do público, mas os comentários predominantes não foram sobre este fator, mas sobre a aparência da atriz.

Quando se usa a aparência de alguém para criticar um trabalho realizado por ela, é neste momento que percebemos que não é uma crítica burra ou sem fundamento. É apenas um comentário de ódio e violência verbal. E essas pessoas, só provam que assistiram a série de olhos fechados.

Acredito que o maior estranhamento, talvez, ainda seja maior pelo lançamento espaçado entre os episódios. O tempo de tela de alguns arcos poderia ter sido menor ou mais acelerado, como os de Max e Holly, que apesar de extremamente importantes, se tornaram maçantes. Essa escolha narrativa faz com que o segundo volume de Stranger Things provoque reações tão divididas.

A direção de alguns episódios também deixa a desejar, e a qualidade de maquiagem também parece ser inferior se compararmos com os detalhes de temporadas passadas. Se contarmos que o investimento da 5ª temporada foi de aproximadamente US$ 480 milhões, estimando um retorno de US$ 2 bilhões à Netflix e tendo atores jovens com menos de 30 anos garantindo estabilidade financeira para o resto da vida… é de se esperar algo grandioso por parte do que entregam.

Não é por tanto amor uma série, que devemos aceitar qualquer coisa por parte de quem cria e faz acontecer. A questão é: faltam 2h8 para amarrar a trama, e sinceramente? Não sinto medo de como as coisas vão terminar, mas, espero que termine entregando muito entretenimento, como até o momento, souberam fazer.

Achei o peso dramático bom, e as referências que tanto pareceram incomodar a muitos, continua sendo um prato cheio de “easter eggs” pra quem já conhece bem a abordagem inicial da série. Pra quem cresceu consumindo os clássicos, fazer essa viagem no tempo através de algo novo é nostálgico. Mas para as novas gerações, é uma forma de mostrar as fontes que a série tanto bebe. E não, eu não me cansei e não achei que esse tipo de abordagem “já deu”. Pra mim continua sendo ok.

A explicação que tanto queríamos sobre Hawkins e o Mundo Invertido, e agora, a revelação da Dimensão X. Ficou quase que em último plano para algumas coisas que me parecem críticas tão superficiais.

Aguardemos então o episódio oito.

Stranger Things Vol. 2, já está disponível na Netflix.

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Uma jornalista um tanto quanto nerd, apaixonada por conteúdo, música, filmes, séries e afins. Fundou o blog para dividir as alegrias e as angústias de uma vida que surpreende a cada novo capítulo.

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