Resenha Literária do livro: Queime
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QUEIME | RESENHA LITERÁRIA

Queime é aquela leitura voraz que nos faz questionar talvez uma parcialidade do nosso caráter, despertando uma sensação deliciosamente vingativa contra uma porção — mesmo que mínima — da escória humana.

A investigadora Maia Torres é acionada para investigar um corpo que foi encontrado carbonizado em um campo aberto na zona oeste do Rio de Janeiro. A história se inicia assim: uma investigação sobre um aparente crime brutal. Nossa querida investigadora assume a missão de desvendar os mistérios que cercam a vítima.

Mas o que não esperamos é a pergunta que surge logo em seguida: será que a vítima é tão vítima quanto parece ser?

É nessa questão que entra a ambivalência moral da narrativa, fazendo nossos sentimentos se tornarem contraditórios. O assassinato de uma pessoa é, inquestionavelmente, errado. Mas sendo essa pessoa desprezível, violenta, abusiva e um estuprador em potencial… eu passo, no mínimo, a não lamentá-la.

A escrita de Gab Leão nos molda diversas vezes ao longo da história, conduzindo o leitor por diferentes percepções do crime a partir da visão particular de cada personagem.

A investigadora Maia se apresenta como uma mulher resiliente que tenta seguir a vida após a perda inesperada de seu marido em um acidente de trânsito. Mesmo se dedicando fielmente ao trabalho, a história de Maia não se limita apenas aos ócios do ofício. Também podemos ver o lado particular, real e humano da personagem.

De forma sutil, mas reconfortante, Gab nos envolve no mundo íntimo de Maia, a ponto de nos tornarmos quase espectadores palpáveis de uma mulher que vive, sem pressa, a dor do próprio luto.

De maneira quase mística, Maia continua vivendo com a presença do falecido marido, Arthur — alguém que apenas ela é capaz de ver, sentir e com quem consegue se comunicar. Ele se torna praticamente um mentor para Maia, não apenas nos casos que a afligem no trabalho, mas também na vida, aconselhando-a de forma sutil a seguir em frente.

Todavia, Maia não é a única mulher em destaque em Queime. Na realidade, protagonismo feminino é o que não falta na narrativa. Contudo, nem apenas de mulheres donas da própria história é feito o livro. Infelizmente, também precisamos passar pelo desprazer de conhecer o homem que, mais tarde, se tornará apenas fragmentos carbonizados: Victor.

Victor: o retrato da violência masculina

O retrato perfeito de um projeto machista, misógino, violento, rico e conservador de homem.

Victor é aquele tipo de homem que, de longe, pode parecer atraente para algumas mulheres, mas que, de perto, não é nada além de um risco iminente à própria vida.

O relacionamento que Victor e Nicole constroem em Queime é um retrato doloroso de ler. Apesar de a história ser um thriller de suspense criminal fictício, ela bebe diretamente da fonte da trágica realidade humana, fazendo com que muitos leitores reconheçam alguém — ou até a si mesmos — nessa relação.

Apesar de enganar muitos como um homem íntegro, trabalhador, amigo e saudável, Victor nada mais é do que a escória da sociedade.

A sorte de Nicole está no amuleto que carrega consigo: Tália, a amiga que enxerga Victor exatamente como ele realmente é.

O mistério central da narrativa não está em descobrir a identidade daquele corpo carbonizado, porque logo sabemos que se trata do ser mais desprezível da história.

O verdadeiro jogo psicológico que o autor faz com os leitores é outro: quem é o assassino?

Você consegue imaginar?

Na tentativa de desvendar esse enigma, somos consumidos pelas páginas. Durante toda a história, o assassino também se comunica com o leitor por meio de cartas e bilhetes, deixando sua própria perspectiva sobre a vida, suas ações, sua história e os motivos pelos quais cometeu os crimes que assume.

Não existem pontos baixos. A sensação é de que Queime vive permanentemente no ponto alto da narrativa, alimentando a curiosidade, a raiva e até o sentimento de vingança do leitor.

O verdadeiro mistério de Queime

Somos levados a alimentar aquele misto de curiosidade e inquietação: quem matou Victor?

Quase sentimos a angústia de descobrir quem cometeu tal crime — talvez apenas para parabenizar a pessoa responsável por salvar a vida de uma mulher que, sozinha, talvez nunca conseguisse se libertar disso com vida.

Devo admitir que a descoberta da assassina — sim, Tália, uma mulher — torna o desfecho da história ainda mais fascinante.

Somos hipócritas, talvez. Mas, dentro desse recorte, o crime descrito soa quase como legítima defesa.

E talvez apenas leitoras consigam entender profundamente o medo íntimo de existir nesta sociedade apenas por ter nascido mulher.

É por isso que esse sentimento conflituoso surge ao longo da leitura: eu sei que é errado, sei que eu nunca faria algo assim… mas é impossível não pensar que o mundo talvez esteja um pouco melhor sem uma pessoa como Victor.

Por fim, para os amantes de leituras vorazes, instigantes e ousadas, Queime é uma excelente escolha para quem deseja se aventurar pelo olhar do suspense nacional.

E vale ressaltar algo que não é menos importante:

No fundo, sempre seremos nós por nós mesmas.

Ficha Literária do livro Queime por Gab Leão

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Uma jornalista um tanto quanto nerd, apaixonada por conteúdo, música, filmes, séries e afins. Fundou o blog para dividir as alegrias e as angústias de uma vida que surpreende a cada novo capítulo.

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