COMO ARRUINAR UM CASAMENTO | RESENHA LITERÁRIA
Como Arruinar um Casamento nos conta a história de Phoebe Stone, uma mulher recém-divorciada, à beira de um colapso emocional e psicológico, que se vê no fundo do poço logo no início da história. Ao longo de seus trinta e poucos anos de vida, Phoebe coleciona traumas, lutos não vividos de perdas profundas, frustrações profissionais e, como o próprio título da obra sugere, uma série de ruínas em seu casamento.
É o acúmulo dessa dor que leva Phoebe a abandonar sua vida e se hospedar na Pousada Cornwall. Sem perspectivas e desejando apenas uma última noite de paz antes de seguir com seu plano inicial — tirar a própria vida —, a protagonista acredita ter encontrado um refúgio temporário.
O que Phoebe não esperava era que sua última tentativa de “fuga” acabaria sendo adiada. Sua estadia, que deveria ser silenciosa e introspectiva, se transforma em caos quando ela descobre que a pousada está completamente reservada para um casamento do qual ela, obviamente, não foi convidada.
A noiva, Lila, é uma figura completamente oposta a Stone: mimada, egoísta e acostumada a ter tudo do seu jeito. Após investir uma quantia significativa de dinheiro na cerimônia dos seus sonhos, Lila entra em pânico ao descobrir o verdadeiro motivo da presença daquela forasteira no ambiente do casamento.
Esse encontro inesperado acaba se desdobrando em uma breve e improvável amizade entre as duas mulheres, como se uma representasse a razão e a outra a emoção.
SOBRE A NARRATIVA DE COMO ARRUINAR UM CASAMENTO E OS TEMAS ABORDADOS NO LIVROS
Embora seja compreensível a intenção da autora ao abordar temas complexos e sensíveis, como: depressão, luto, suicídio, traição, aborto e divórcio, Alison Espach constrói uma narrativa excessivamente densa, que se estende por páginas e mais páginas de sofrimento acumulado. A escrita não chega a ser irresponsável, mas se torna massiva, cansativa e, em muitos momentos, torturante até mesmo para o leitor — imagine para quem já viveu ou vive gatilhos semelhantes.
O que poderia ser uma proposta de aprofundamento da jornada emocional da personagem até aquele ponto crítico acaba se transformando em um exercício exaustivo de dor. Não se trata de esperar apenas histórias cor-de-rosa, finais felizes ou narrativas rasas. Trata-se de cuidado e responsabilidade ao retratar temas tão pesados.
Dor nunca foi, e nunca será, entretenimento. A arte é política e tem o poder de fomentar discussões sobre assuntos que, muitas vezes, são evitados midiaticamente. Devemos falar sobre trauma, sofrimento e questões emocionais, psicológicas ou psiquiátricas sim, mas como ferramentas que ampliem o debate, não apenas como combustível narrativo.
O incômodo também nos move, mas aqui ele parece existir apenas para conduzir o leitor ao ponto onde a autora deseja chegar: uma solução que sugere a abertura para um possível novo romance. Esse encaminhamento me assusta um pouco.
Entre as personagens femininas, Phoebe é a única que demonstra alguma maturidade emocional, apesar de todos os seus pesares. As demais mulheres são retratadas quase como colegas de época escolar: competitivas, mimadas, infantis, caricatas e profundamente egoístas.
Enquanto isso, o noivo surge como um prêmio a ser conquistado. O ex-marido, mesmo tendo sido um patife ao longo do relacionamento, ganha no final um contorno “doce”, como se seus erros fossem apenas falhas comuns de qualquer ser humano — uma escolha narrativa que relativiza comportamentos problemáticos.
Essa tendência talvez nem tenha sido proposital ou plenamente consciente por parte da autora, já que é perceptível sua tentativa de abordar temas como recomeços, amizades que nascem da improbabilidade, a descoberta do amor-próprio e o perdão.
Como Arruinar um Casamento tenta dizer muito, sobrecarrega a dor e tropeça na própria proposta, transformando sofrimento em percurso obrigatório para chegar a um desfecho previsível. Reconheço a tentativa de discutir temas importantes, mas, para mim, isso não foi suficiente para sustentar a experiência de leitura nem justificar o hype em torno do livro.
Marcella Montanari
Uma jornalista um tanto quanto nerd, apaixonada por conteúdo, música, filmes, séries e afins. Fundou o blog para dividir as alegrias e as angústias de uma vida que surpreende a cada novo capítulo.
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