La Casa de Papel Parte 4
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La Casa de Papel – Parte 4 | Crítica

Sem resposta por alguns meses, a cartada final é dada em La Casa de Papel parte 4, mas em meio a um roteiro tentado a manter o clímax em alta tensão, fatores importantes foram esquecidos ou deixados de lado, como a coerência e o respeito pela narrativa dos personagens.

A série inicialmente desenvolvida para o canal espanhol aberto de televisão, Antena 3, almejava uma grandeza de público que em sua grande maioria estava fora da Espanha. Depois de registrar uma queda drástica de audiência ao fim da segunda parte, a Netflix surge como a peça essencial para que La Casa de Papel se torne a série de língua não-inglesa mais assistida no mundo, inserindo-a em seu catálogo internacional.

A cor vermelha presente na narrativa permanece constantemente permeando a paixão e alimentando nossa voracidade por mais, somadas à simbologia tenaz por meio das máscaras de Salvador Dalí, figura meritória espanhola que atada à ressuscitada Bella Ciao, marcada pela luta incansável da resistência antifascista, nos dá tudo aquilo que não sabíamos que desejávamos, mas que cai de bom grado aos olhos. Somos fanáticos por simbologias, por isso é tão fácil se apegar a La Casa de Papel e perdoar os erros tolos de roteiro ou edição iniciais banais.

Esqueça o mérito avaliativo de caráter, como certo e errado, vilões e mocinhos. A nossa torcida aqui se encaminha para aqueles que despertam nossa identificação e consequentemente nosso interesse pela história – como em tudo aquilo que consumimos. Um elenco talentoso e carismático, somadas à jornadas bem desenvolvidas que nos levam facilmente ao apego pelos personagens; é disso que precisamos para prosseguir assistindo. Seria impossível continuarmos interessados e apegados à história se não fosse o encantamento por eles, suas qualidades e falhas absurdas, construídas a partir da humanização dos roteiristas.

La casa de papel - Parte IV

O que Álex Pina não esperava era que precisaria estender uma história que parecia ter sido concluída. O sucesso veio e ansiando por mais. Como seria possível desfazer um ‘erro’ (leia-se a morte de Berlin) do passado? Com a adoração desenvolvida por Berlin, muito graças ao trabalho excepcional de Pedro Alonso, seria possível prosseguir a história sem este protagonismo? Claro que sim, mas a importância e o favoritismo dele perante o público foi notada e portanto, mantida por mais duas partes na série, mesmo estando morto. A forma de mantê-lo vivo por meio de memórias do passado nos daria apenas um tempo a mais para aceitar a sua despedida inevitável.

Levando em consideração todo o esforço necessário para prosseguir a história que parecia não fazer sentido sem a figura emblemática de Berlin, Nairóbi (Alba Flores) assume esta posição de ação, inteligência, empoderamento e liderança feminista. Força essa que se materializou bem na narrativa e se vê ausente em tantas outras existentes por aí. Ela é mais do que bem-vinda, mas necessária. La Casa de Papel parte 4, volta a cometer o mesmo ‘erro’, mas desta vez de forma desnecessária.

Mantendo um roteiro raso e previsível, diferente de Berlin, Nairóbi não possui um destino justo ou uma despedida digna da relevância que a personagem traz à narrativa. É percebido desde o primeiro instante que a personagem não se restabelecerá na história, o que cria uma tensão fútil durante os oito episódios da quarta parte.

A tentativa de trazer o inesperado abraça facilmente a obviedade. Após perdermos Oslo (Roberto Garcia), Moscou (Paco Tous), Berlin, a única coisa que a morte de Nairóbi nos inibe é da vontade de prosseguir assistindo a um novo atraco, principalmente se levarmos ao fato de que o chefe da segurança do Banco Central da Espanha, Gandía (José Manuel Poga), supostamente não estaria vivo, após tantos golpes certeiros trocados com os assaltantes. Mesmo a ficção precisa saber trabalhar coerência pra que exista lógica no que está sendo contado.

A mediocridade desnecessária de Arturo Román (Enrique Arce) apenas comprova o que antes já parecia óbvio na continuidade da série, além de não realizar acréscimos de importância na narrativa, causa gatilhos de mal estar dispensáveis sobre assuntos que precisam ser debatidos, mas com prudência e que já haviam sido apresentados antes na série.

A introdução da nova membro do bando, Manila (Belen Cuesta), deixa a desejar. É clara a tentativa dos produtores de levantar debate acerca do tema identidade de gênero, após apresentar a primeira personagem transexual da série, vontade essa que se perde facilmente em uma abordagem rasa sobre o assunto. Se a tentativa mirava em tratar o tema com naturalidade, falha na cena entre Denver (Jaime Lorente) e Manila, na qual os personagens debatem o assunto sem aprofundamento ou didática. Sem depreciar o talento de Belen Cuesta, é preciso avaliar a discussão levantada acerca da ausência de uma atriz transexual para dar vida a personagem. Quando o mercado não abre o mesmo leque de oportunidades para mulheres transexuais ou transgêneros, é preciso que a indústria se atente a este tipo de levantamento feito por quem assiste. Representatividade vai além de um personagem existente apenas para fazer número em uma narrativa. Demanda acima de tudo respeito, estudo e cuidado por aqueles que ali se sentem representados.

Pina revelou ter levado cerca de 2 meses para responder a Netflix sobre a possibilidade de estender a história para novas temporadas, pois deveria analisar como realizar a façanha sem frustrar as pessoas, mas ao fim de La Casa de Papel parte 4, falha na missão.

É claro que estaremos sempre torcendo pelos personagens que nos encantam, que ficaremos tristes com as despedidas que não gostaríamos de presenciar, que ficamos felizes com a abordagem de temas que mais do que nunca necessitam de espaço na arte para lucidar o que muitos ignoram na vida real, mas tudo isso se torna especial quando feito com coerência, não aos atropelos. Talvez o maior erro de La Casa de Papel parte 4, tenha sido a falta de zelo por um sucesso que se deu como eternamente ganho, em meio a uma história que os próprios showrunners classificavam inicialmente como a “história de um fracasso”. Os atropelos vieram acompanhados de apelos que entre gravações e escritas de roteiro simultâneas, demonstraram uma vontade maior de dobrar números em um lacre que nunca veio.

NOTA:

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Uma jornalista um tanto quanto nerd, apaixonada por conteúdo, música, filmes, séries e afins. Fundou o blog para dividir as alegrias e as angústias de uma vida que surpreende a cada novo capítulo.

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