O elenco protagonista da 3ª temporada de 13 Reasons Why da Netflix
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3ª TEMPORADA DE 13 REASONS WHY | CRÍTICA

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Precisamos falar sobre os problemas que a 3ª temporada de 13 Reasons Why reafirma e não apresenta resolução saudável. Desde a primeira temporada, a série é motivo de preocupação para muitas pessoas que temiam que o seu conteúdo pudesse de alguma forma afetar negativamente o público infanto-juvenil. Mesmo com os avisos prévios, a Netflix levou um tempo considerável para que finalmente levasse o apelo das pessoas em consideração, para que retirassem as cenas explícitas do suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford).

É notável a vontade da série em se comunicar com a audiência para falar sobre os problemas sombrios que diversos adolescentes enfrentam tanto na escola, quanto em suas vidas pessoais. Mas será que a série soube transmitir o recado e levantar a bandeira de alerta da maneira que pretendiam?

Assuntos como bullying, cyberbullying, sexualidade, identidade, violência, depressão, ansiedade, suicídio, automutilação, estupro, aborto, drogas, dentre outros que a série aborda, precisam ser tratados de forma cautelosa, e desde a primeira temporada, os responsáveis tem falhado miseravelmente em apresentar resoluções saudáveis para tantos problemas.

TODOS MERECEM UMA SEGUNDA CHANCE

O elenco protagonista da 3ª temporada de 13 Reasons Why da Netflix
(Reprodução: 13 Reasons Why | Netflix)

Ao longo da história, fomos descobrindo fatores e rostos que contribuíram para o agravamento da depressão de Hannah. Já na terceira temporada, nos deparamos com mais uma perda, e com ela diversos problemas drásticos que vamos discorrer sobre.

Todos merecem uma chance de se redimir, de se desculpar e consertar os seus erros, mas apesar da tentativa, não é isso que a 3ª temporada de 13 Reasons Why faz ou acredita veemente ter feito. O roteiro não traz justiça para Hannah Baker, Jessica Davis (Alisha Boe) e todas as demais jovens que foram vítimas de abuso sexual por parte de Bryce Walker (Justin Prentice), pelo contrário, vemos um enredo que tenta vitimizar o abusador e acobertar seus crimes, na tentativa de justifica-los pelos seus problemas pessoais.

A todo o instante nos é apresentado um Bryce fragilizado, pensativo, emotivo e supostamente arrependido, numa tentativa desesperada de que sentíssemos pena do abusador. Assistimos inclusive, o mesmo adolescente tendo algumas atitudes de herói barato, mas mesmo se dizendo arrependido, ele nunca apresenta sequer o interesse de procurar a polícia e assumir a responsabilidade por tudo o que fez a todos.

Jessica Davis leva tempo para criar coragem de enfrentar o seu abusador (o que é perfeitamente normal em casos assim, cada vítima tem o seu próprio tempo), e assume o papel de uma mulher que aparenta ser histérica sem necessidade, não só para os membros da escola, mas para quem assiste a série. Este comportamento acontece na vida real. Muitas mulheres vítimas de abuso e violência são consideradas histéricas ou são julgadas de forma injusta pelos traumas sofridos, mas onde esteve a redenção dos julgamentos sofridos pela jovem? Ela enfrenta duras críticas por parte dos colegas de classe (homens e mulheres), inclusive do diretor da escola, que tenta coibir suas atitudes e depois passa a se auto-intitular feminista.

Já não bastasse estes fatores, o enredo volta a reunir Jessica e Justin (Brandon Flynn), sim, o ex-namorado que permitiu que o amigo abusasse sexualmente dela. Na 3ª temporada de 13 Reasons Why, Foley também assume ter sido vítima de abuso sexual quando criança, mas isso não conserta os fatos, é ainda pior, levando-se em consideração que ele sabia na pele, o que era passar por tamanha violência. Sabemos pelo o que assistimos que Justin sempre se sentiu mal e culpado pelo o ocorrido, mas verdade seja dita, ele não fez muitos esforços para impedir que o estupro acontecesse.

O comportamento abusivo e obsessivo de Clay (Dylan Minnette) precisa ser revisto. Os sentimentos de Jensen tentam parecer como preocupação e afeto, mas não são. Aliás, o jovem se comporta perfeitamente como um exemplo de relacionamento tóxico que mulheres precisam se afastar. Hannah e Ani (Grace Saif) passaram por isso quando se relacionaram com ele, e em mais uma temporada não vemos uma resolução para este comportamento. O personagem precisa evoluir ou apenas servirá pra reafirmar um comportamento doentio e abusivo como um relacionamento normal.

ERROS GRAVES QUE NÃO POSSUEM JUSTIFICATIVAS

O elenco protagonista da 3ª temporada de 13 Reasons Why da Netflix
(Reprodução: 13 Reasons Why | Netflix)

A normalização da gravidade dos atos é o que mais preocupa na 3ª temporada de 13 Reasons Why. O mistério da trama ao redor da morte de Bryce é intrigante, mas quando descobrimos os verdadeiros responsáveis por ela, fica a pergunta: POR QUE? E se a sua resposta for: POR TUDO O QUE ELE FEZ – fica claro que sua visão é ainda mais preocupante e a série falhou em reverter esta percepção de quem assiste. Matar não é justificativa pra nada.

Nos é reafirmado a todo o tempo, que TODOS os alunos obtinham motivos necessários para matar Walker. Entende-se a gravidade dos atos de Bryce, mas era necessário transformar todos os adolescentes em possíveis assassinos pelos traumas que viveram? Todos aparentam digerir a questão com tamanha facilidade e normalidade, que o resultado do homicídio sequer soa como algo preocupante, como se fosse natural ter tido o resultado que teve em decorrência dos atos de Bryce.

Não transmitimos recados importantes transformando adolescentes que passam por situações graves em assassinos ou justiceiros em potencial. A série não traz uma resolução plausível para os arcos dos personagens.

Outro caso preocupante é o de Montgomery (Timothy Granaderos), que sim, foi acusado e punido justamente pelo estupro de Tyler (Devin Druid), mas que também acabou sendo responsabilizado por um homicídio não cometido e a série conseguiu dar um desfecho para o personagem, matando-o. E mais uma vez, os adolescentes não parecem sequer lamentarem ou se alarmarem com o ocorrido, pelo contrário.

Será possível que a série consiga ter uma resolução madura e devidamente admissível, sem que haja mais uma morte para fundamentar um ‘senso de justiça’ ou soar como ‘única saída’ para os problemas causados por eles mesmos?

A HIPOCRISIA QUE RONDA O ROTEIRO

(Reprodução: 13 Reasons Why | Netflix)

Ani é uma personagem que aparece de repente e assume o papel de narradora onisciente, posto este que antes era de Hannah Baker. Mas a presença da jovem se torna incoerente, já que a mesma não viveu os acontecimentos que assombram a Liberty High e afirma várias vezes que pouco sabe sobre a história de Baker.

Poderia mesmo a adolescente supostamente saber tanto sobre a vida de todos como faz parecer em tão pouco tempo na nova escola, limitando seus contatos a poucos alunos?

Mesmo que Ani aparente ser muito curiosa, os segredos ali estão encrustados a muito tempo e as informações obtidas por ela não parecem ser o suficiente para montar toda uma linha do tempo. Sem mencionarmos que a aluna parece conquistar a confiança dos protagonistas sem muito esforço, outra questão inconsistente, dado a resistência dos alunos em fazer novas amizades, devido aos inúmeros segredos e confidências que mantém entre si.

Ani se apresenta como uma personagem interessante e que nos parece ser inteligente demais para ser passada pra trás, porém, acaba cedendo aos encantos de Bryce Walker, mesmo sabendo dos substanciais estupros cometidos por ele. Contexto desconexo entre personagens.

Uma das questões que talvez tenha sido um dos saldos positivos da série é a força tarefa dos colegas para ajudar Tyler a retomar sua vida normal, após o quase atentado no baile da escola. Mas percebam algo, todos sabem que buscar por ajuda profissional é o ideal para enfrentar problemas tão preocupantes quanto os que a maioria enfrenta e insistem para que Tyler o faça, porém, nenhum outro jovem se dispõe ao mesmo. A própria série faz essa recomendação antes dos episódios começarem, mas na própria trama isso não acontece, eles se fecham em seu próprio mundo de mentiras e segredos, escolhendo sobreviverem desta forma, até que o próximo do grupo alcance o fundo do poço.

A 3ª temporada de 13 Reasons Why nos leva de volta ao questionamento sobre se a série deveria ter sido adaptada como uma série longa ou se poderia ter sido realizada como uma minissérie ou talvez um filme. A extensão da história só vem acarretando maiores problemas sem resoluções ou conclusões tão problemáticas quanto um suicídio explícito.

Normalizar abusadores, estereotipar vítimas, inverter o papel de vítima e abusador, formalizar comportamento abusivo e tóxico, compor homicídio como solução de problemas e sustentar a ideia do círculo vicioso do relacionamento abusivo como uma chance de final feliz é algo gravíssimo. É preciso que os responsáveis pela série revejam a história ou desistam dela, o que já parecem ter feito.

13 Reasons Why possui um site que oferece suporte para as pessoas que estão enfrentando problemas relacionados à depressão, ansiedade, suicídio, etc. Clique aqui para conhecer.

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NOTA:

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Uma jornalista um tanto quanto nerd, apaixonada por conteúdo, música, filmes, séries e afins. Fundou o blog para dividir as alegrias e as angústias de uma vida que surpreende a cada novo capítulo.

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